Rotativo do cartão soma R$ 311 bi em 2026, juros a 445% ao ano
Regra em vigor desde 2024 limita juros a 100% da dívida original, mas inadimplência da linha chega a 63,5%.

O uso do crédito rotativo do cartão cresceu de forma acelerada no Brasil em 2026 e pesa também no orçamento de famílias da Costa Doce e do Sul do Rio Grande do Sul. Segundo o Banco Central, as contratações somaram R$ 311 bilhões entre janeiro e agosto deste ano, novo recorde para o período e alta de cerca de 17% frente aos R$ 266 bilhões registrados no mesmo intervalo de 2025 — R$ 45 bilhões a mais em operações.
Juros do rotativo chegam a 445% ao ano
O crédito rotativo é acionado automaticamente quando o consumidor não paga o valor total da fatura do cartão até a data de vencimento. Nesse cenário, o banco financia o saldo restante e cobra juros sobre o valor não quitado. Em agosto de 2026, de acordo com o Banco Central, a taxa média chegou a 445% ao ano, um dos custos mais altos entre as linhas de crédito disponíveis no país.
Para efeito de comparação, o crédito consignado apresenta taxas entre 24% e 56% ao ano, conforme o Banco Central. No início de 2026, cerca de 101 milhões de brasileiros utilizavam cartão de crédito, e aproximadamente 40 milhões tinham dívidas no rotativo em janeiro. A taxa de inadimplência da linha, no mesmo período, estava em 63,5%.
Regra limita avanço da dívida desde 2024
Desde janeiro de 2024, uma regra do Banco Central limita o crescimento das dívidas no rotativo: os juros e encargos acumulados não podem ultrapassar 100% do valor original devido. Na prática, se o consumidor deixar R$ 100 em aberto, o total cobrado — somando valor original, juros e encargos — não pode superar R$ 200. A medida busca evitar que pequenas dívidas se multipliquem muito acima do valor inicialmente utilizado.
O volume do rotativo também mudou de patamar nos últimos anos. Entre 2012 e 2020, as concessões anuais não ultrapassavam R$ 225 bilhões. A partir de 2022, em meio ao fim do Auxílio Emergencial e à pressão da inflação — que fechou 2021 em 10,06% e ficou próxima de 5,8% em 2022 —, o uso da modalidade disparou. Em 2025, as concessões somaram cerca de R$ 403 bilhões, e o resultado de 2026 já se aproxima desse total apenas nos oito primeiros meses do ano.
Em março de 2026, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, chamou atenção para o uso de linhas emergenciais de crédito como complemento da renda mensal das famílias. Segundo o BC, o desafio é ampliar o acesso a alternativas com condições mais compatíveis com a capacidade de pagamento dos consumidores — como o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, que já havia liberado cerca de R$ 130 bilhões até junho de 2026.
Como evitar o rotativo
Para quem usa cartão de crédito no dia a dia, a orientação é quitar o valor integral da fatura até o vencimento, evitando o início automático do rotativo. Quando o pagamento total não é viável, vale negociar com o banco o parcelamento da fatura ou buscar o consignado, ambos com juros bem menores do que a taxa cobrada no rotativo. Conferir a fatura detalhada e acompanhar o teto de 100% sobre a dívida original também ajuda a identificar cobranças fora da regra em vigor.
O comportamento do crédito rotativo segue sendo monitorado mensalmente pelo Banco Central, que acompanha o volume de concessões e os índices de inadimplência no país. Para as famílias da Costa Doce e do Sul do Rio Grande do Sul, o alerta é o mesmo que vale para o restante do Brasil: o cartão de crédito facilita o consumo no curto prazo, mas deixar saldo pendente de um mês para o outro pode comprometer uma fatia cada vez maior do orçamento doméstico.
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