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Agroregional

Paulo Herrmann na Agricultura: a chance de o agro gaúcho voltar a olhar para a frente

Ex-presidente da John Deere assume a secretaria em janeiro com a missão de devolver ao produtor a confiança e reconverter o campo gaúcho para um novo ciclo — artigo de Donário Lopes de Almeida

27 de outubro de 2026·Redação SulTV
Paulo Herrmann assume a Secretaria da Agricultura do RS em 6 de janeiro de 2027 (Foto: Divulgação)
Paulo Herrmann assume a Secretaria da Agricultura do RS em 6 de janeiro de 2027 (Foto: Divulgação)

O governador eleito Luciano Zucco anunciou nesta terça-feira (27) o nome de Paulo Herrmann para a Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. A posse será em 6 de janeiro de 2027. Recebi a notícia com a alegria de amigo e com a esperança de quem vive do campo: no momento que o agro gaúcho atravessa, poucas escolhas seriam tão acertadas.

Paulo soma mais de 40 anos de agronegócio. Presidiu a John Deere no Brasil entre 2012 e 2022 e foi CEO da Fiergs, onde conduziu o planejamento estratégico, a modernização da gestão e a reconstrução da casa depois da enchente. Hoje comanda a PH Advisory Group, dedicada a estratégia, mentoria e conselhos. Em 2021 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Lavras. Conhece o campo, conhece a indústria e conhece gestão. E não chega ao cargo em busca de vitrine. Quem o conhece sabe disso.

Uma conversa em junho

Em junho estive com ele no seu escritório. Levei uma inquietação que carrego há tempo: o agro gaúcho perdeu protagonismo. Já fomos o primeiro na soja e hoje oscilamos entre terceiro e quarto, ao sabor da seca. Já respondemos por uma fatia enorme da carne brasileira. Enquanto outros estados vivem a euforia do etanol de milho, da segunda e até da terceira safra, aqui seguimos reclamando e olhando pelo retrovisor.

A resposta do Paulo foi direta, como é o estilo dele. O Rio Grande vive demais de um passado glorioso. "Passado a gente bota no museu, reverencia, e depois olha pra frente." Não era desabafo. Era um roteiro. Saí daquela sala com a sensação de ter ouvido um programa de trabalho, e hoje releio minhas anotações com outros olhos.

O solo como caixa d'água

O primeiro ponto daquele roteiro é o clima. A estiagem deixou de ser um evento ocasional e virou um evento recorrente. Evento recorrente pede solução estrutural. A leitura do Paulo desmonta um mito: não falta chuva no Rio Grande do Sul, que recebe perto de 1.700 milímetros por ano. Falta reter a água. Boa parte da nossa soja cresce sobre uma camada rasa de solo, com uma barreira compactada logo abaixo. A raiz bate nela e para. Uma semana sem chuva, e a lavoura sente.

A saída é tratar o solo como caixa d'água: descompactar, aprofundar raiz, recuperar matéria orgânica. Isso se faz com máquina, e o Estado tem uma indústria inteira que fabrica esses implementos. Também se faz com manejo, usando gesso, calcário e plantas de raiz profunda, com pesquisa da universidade, da Emater e da própria Secretaria. Alívio financeiro para quem está endividado é urgente. Mas só a terra que segura água tira o produtor do ciclo de perda.

Duas safras onde hoje fazemos uma

O segundo ponto é o calendário. Plantamos cerca de 7 milhões de hectares de soja no verão e menos da metade dessa área vira grão no inverno. Temos clima para duas safras e colhemos uma. Com mais milho, abastecemos a nossa produção de aves e suínos, agregamos valor dentro do Estado e usamos o porto de Rio Grande, um trunfo que Mato Grosso e Goiás não têm. Para isso precisamos de genética adaptada ao nosso frio e ao nosso ciclo. Precisamos de pesquisa com prioridades definidas aqui e de programas regionais que juntem cooperativas, prefeituras e crédito.

A Metade Sul e a Costa Doce

O terceiro ponto fala diretamente com a nossa região. O Paulo enxerga a Metade Sul como uma nova fronteira agrícola: terra ainda acessível, perto do porto, com vocação para a integração de aves e suínos na pequena propriedade, para a olivicultura e para cadeias que hoje importamos. Camaquã, São Lourenço do Sul, Canguçu e Cristal estão nesse mapa. No arroz, a nossa cultura-mãe, o diagnóstico é corajoso. O consumo por pessoa caiu e o produtor virou vítima do próprio sucesso. O caminho é a reconversão: diversificar as várzeas, rotacionar culturas e dar à terra e à água, os bens mais preciosos que temos, um uso que remunere melhor.

"Resgatar a autoestima dos nossos produtores"

Hoje, assim que soube da notícia, mandei uma mensagem ao Paulo desejando sucesso e lembrando o que dissemos naquela conversa: baita desafio. A resposta veio em quatro minutos: "espero conseguir resgatar a autoestima dos nossos produtores."

Nenhuma frase resume melhor o tamanho da tarefa. O produtor gaúcho não perdeu competência. Perdeu confiança. Depois de safras frustradas, de enchente, de juro alto e de preço baixo, o campo precisa de quem diga com números que vale a pena investir de novo. Que tecnologia boa é a que prova que reduz custo. Que a próxima geração tem futuro aqui e não precisa pegar o avião para prosperar.

Onde a sociedade entra

Um secretário não faz isso sozinho, e o Paulo sabe disso melhor do que ninguém. Um plano de Estado não nasce só dentro dos gabinetes. Ele precisa de entidades fortes, a começar pela Farsul, e de cooperativas, universidades e pesquisa. Precisa também de jovens e de mulheres na gestão, e de gente disposta a propor em vez de só reclamar.

Há iniciativas prontas para somar. A Trilha Agro do South Summit Brazil coloca o agro gaúcho na vitrine da inovação. O HackatAgro, que neste mês percorre a Fronteira Oeste com o Sebrae, transforma problemas do campo em soluções criadas por jovens. O Movimento RS Agro 2035 quer construir com a sociedade civil uma visão de longo prazo para o setor. Todas ganham um interlocutor que entende de inovação porque a viveu por dentro.

Teu sucesso é o nosso

Paulo é vizinho da Costa Doce, um gaúcho que fez carreira no Brasil e no mundo e que poderia ter escolhido o conforto. Escolheu o desafio. Tenho confiança de que ele tem a chance real de liderar o resgate e a reconversão do agro gaúcho para um novo ciclo de prosperidade. Como escrevi a ele hoje: teu sucesso é o nosso. No que precisar, estamos na volta.

Donário Lopes de Almeida é engenheiro agrônomo, jornalista e produtor rural em Arambaré. Preside o Conselho da ABMRA, lidera a Comissão de Inovação da Farsul e é sócio da SulTV.

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