Doença aviária em SC pode elevar preço do frango no Sul do RS
Santa Catarina exportou 63% da produção em 2025 e concentrou 25% da receita cambial do setor avícola brasileiro.

Um possível aumento no preço do frango nos mercados do Rio Grande do Sul a partir do primeiro trimestre de 2027 está entre os riscos apontados em uma análise do banco Itaú BBA sobre os embargos comerciais provocados pelo foco de doença de Newcastle identificado em Santa Catarina. A enfermidade foi confirmada em 18 de outubro em uma propriedade de criação de perus de corte no município de Nova Itaberaba, no Oeste catarinense, e já levou China, Arábia Saudita, Chile, México e Malásia a suspenderem, total ou parcialmente, a compra de carne de aves do estado. Segundo a avaliação, caso as restrições se prolonguem, parte do volume que seguiria para exportação pode ser redirecionado ao mercado interno, pressionando as cotações da proteína que chega às mesas gaúchas.
Por que Santa Catarina concentra o maior risco
A dependência catarinense das vendas externas explica por que o impacto econômico tende a ser mais sentido no estado do que no conjunto do país. Em 2025, Santa Catarina produziu aproximadamente 1,915 milhão de toneladas de carne de frango, das quais cerca de 1,2 milhão de toneladas foram exportadas — uma fatia de 63% da produção estadual, bem acima da média nacional, de 37%.
No total, o Brasil produziu 14,291 milhões de toneladas de frango em 2025 e exportou 5,324 milhões de toneladas. Santa Catarina respondeu por 13,4% da produção nacional, mas concentrou 22,5% do volume exportado e 25% da receita em dólares gerada pelo setor, com vendas externas de US$ 2,45 bilhões de um total brasileiro de US$ 9,8 bilhões.
Quais países restringiram as compras
Conforme atualização do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) de 21 de outubro, China e Arábia Saudita suspenderam a importação de carne de aves proveniente de Santa Catarina, enquanto o Chile adotou restrição semelhante, limitada ao estado. México e Malásia, por sua vez, estabeleceram suspensões de alcance nacional, ainda que direcionadas a produtos diferentes em cada mercado. A regionalização adotada pela China preserva as exportações de outros estados brasileiros, mas exige que frigoríficos e cooperativas catarinenses busquem destinos alternativos para o volume represado.
Entre os riscos listados pelo Itaú BBA estão o acúmulo de estoques refrigerados, o aumento de despesas com armazenagem, a renegociação de contratos e a necessidade de vender para mercados que pagam preços menores. Esses fatores podem pressionar o caixa de frigoríficos e cooperativas e, em casos de redução no ritmo de abates, também afetar produtores integrados — ainda que o banco não quantifique perdas já concretizadas.
O que os precedentes sanitários indicam
O banco usa como referência dois episódios recentes no Rio Grande do Sul para estimar o tempo de reabertura dos mercados. No foco de Newcastle registrado em Anta Gorda, em 2024, a China restringiu inicialmente todo o Brasil e depois limitou a medida ao estado gaúcho. Já na ocorrência de influenza aviária em Montenegro, em 2025, o retorno das compras chinesas levou cerca de seis meses, com restrições específicas ao estado por período adicional.
O cenário de pressão nos preços também depende do ritmo da produção nacional. Dados preliminares do Itaú BBA mostram que a produção brasileira de frango cresceu aproximadamente 6,2% entre janeiro e setembro de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025 — um volume maior que pode ajudar a absorver parte do excedente, caso o redirecionamento ao mercado interno se confirme.
O despovoamento sanitário da propriedade de Nova Itaberaba foi concluído em 20 de outubro, mas os procedimentos de limpeza, desinfecção e vigilância epidemiológica continuam em andamento, segundo o Mapa. Cada país importador ainda precisa avaliar os protocolos sanitários antes de autorizar novamente as compras, o que deve manter o tema em observação nos próximos meses — com efeito direto sobre o bolso de quem compra frango no Rio Grande do Sul, dependendo da duração dos embargos.
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