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O fim da hiperglobalização e a nova oportunidade do Agro

  • Foto do escritor: Donario Lopes de Almeida
    Donario Lopes de Almeida
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Participei, em Porto Alegre, da palestra do economista Eduardo Giannetti em evento da FARSUL e saí convencido de que estamos diante de uma mudança histórica na economia mundial. Sua principal tese é que o ciclo da hiperglobalização — que orientou as últimas quatro décadas de expansão do comércio internacional — está chegando ao fim.


Eduardo Gianetti da Fonseca é um dos mais renomados economistas brasileiros.


Se essa leitura estiver correta, e acredito que esteja, o Brasil pode estar diante de uma oportunidade rara de ampliar seu protagonismo global. Para um país cuja maior vantagem competitiva está na produção de alimentos, energia e recursos naturais, essa transformação merece atenção.


Durante esse período de hiperglobalização, prevaleceu a lógica da máxima eficiência econômica. Empresas produziram onde os custos eram menores, concentrando investimentos e cadeias produtivas em poucos países, especialmente na Ásia. Esse modelo impulsionou o crescimento mundial, mas também criou dependências que hoje se mostram arriscadas. A crise financeira de 2008, a pandemia e as recentes tensões geopolíticas evidenciaram que eficiência, sozinha, não basta. Segurança, previsibilidade e diversificação passaram a ser fatores tão importantes quanto custo.


É justamente nesse novo contexto que o Brasil ganha importância. Poucos países combinam disponibilidade de água, terras agricultáveis, matriz energética renovável, biodiversidade e um agronegócio altamente competitivo. Em um mundo preocupado com segurança alimentar, transição energética e sustentabilidade, esses atributos deixam de ser apenas vantagens comparativas para se tornarem ativos estratégicos.


Mas essa oportunidade não se transformará em desenvolvimento automaticamente. Continuaremos sendo grandes produtores de commodities, porém o desafio agora é capturar mais valor. Isso significa industrializar mais, investir em tecnologia, ampliar a rastreabilidade, fortalecer marcas e incorporar inovação em toda a cadeia produtiva. O diferencial competitivo do futuro estará menos no volume produzido e mais na inteligência agregada aos produtos.


O Rio Grande do Sul reúne condições privilegiadas para liderar esse movimento. Além da força do campo, possui universidades, centros de pesquisa, cooperativas e um ambiente de inovação capaz de gerar soluções para uma agricultura cada vez mais tecnológica. Podemos exportar muito mais do que alimentos; podemos exportar conhecimento, genética, biotecnologia e serviços para o agro global.


Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar nossos próprios entraves. Infraestrutura deficiente, burocracia, insegurança jurídica e desequilíbrio fiscal continuam reduzindo nossa competitividade. Esses problemas não dependem do cenário internacional, mas da nossa capacidade de construir um ambiente favorável ao investimento e à produtividade.


A principal mensagem da palestra de Eduardo Giannetti é que os ventos da economia mundial voltaram a soprar a favor do Brasil. A reorganização das cadeias globais, a busca por fornecedores confiáveis e a crescente demanda por alimentos, energia renovável e minerais estratégicos criam uma oportunidade que talvez não se repita tão cedo.


Como produtor rural, vejo diariamente a capacidade de adaptação do agronegócio brasileiro. Acredito que chegou o momento de pensarmos além da porteira e enxergarmos o Brasil como um fornecedor global de soluções. O mundo precisará cada vez mais do que sabemos produzir. Cabe a nós criar as condições para transformar essa demanda em desenvolvimento, renda e protagonismo para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.

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