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Clima

Indonésia usa 1,5 tonelada de gelo seco contra fumaça

Poluição do ar passa de 1.200 pontos e já causou 280 mil casos respiratórios desde agosto.

15 de outubro de 2026·Redação SulTV
Fumaça densa cobre Palangka Raya, na Indonésia, em meio à crise de incêndios agravada pelo El Niño.
Fumaça densa cobre Palangka Raya, na Indonésia, em meio à crise de incêndios agravada pelo El Niño.

Aviões lançaram 1,5 tonelada de gelo seco sobre a província de Sumatra do Sul, na Indonésia, nesta quinta-feira (15), numa tentativa inédita de dispersar a fumaça tóxica que cobre cidades inteiras durante uma das piores temporadas de incêndios florestais da última década. A operação, concentrada em Palembang e no entorno, foi apresentada pelo governo indonésio como resposta emergencial à crise de qualidade do ar agravada por uma seca associada a um El Niño considerado excepcionalmente intenso.

Fumaça ultrapassa fronteiras e eleva casos respiratórios

Em Palangka Raya, na ilha de Bornéu, o céu ganhou tons intensos de amarelo e laranja, com visibilidade reduzida a poucas dezenas de metros em alguns pontos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente da Indonésia, o índice de poluição atmosférica superou 1.200 pontos na região, quatro vezes acima do patamar de 300 usado como referência para condições perigosas. Desde 18 de agosto, mais de 280 mil casos de problemas respiratórios foram registrados nas áreas afetadas, conforme informações das autoridades locais.

A poluição também atravessou fronteiras. Singapura e Malásia registraram níveis preocupantes de contaminação do ar, Kuala Lumpur chegou ao topo de um ranking internacional das cidades mais poluídas do mundo, e o Timor-Leste determinou o fechamento das escolas por três dias para proteger estudantes e funcionários. Em Singapura, autoridades distribuíram máscaras N95 para moradores elegíveis e retomaram medidas de apoio ao atendimento médico ligado à exposição à fumaça.

Técnica é diferente da indução de chuva já usada no país

De acordo com o ministro coordenador de Assuntos Políticos e de Segurança da Indonésia, Dudung Abdurachman, a proposta com o gelo seco — dióxido de carbono em estado sólido — é desorganizar a concentração de fumaça nas camadas mais baixas da atmosfera, favorecendo sua elevação. Caso o teste em Sumatra do Sul apresente resultados satisfatórios, a técnica poderá ser estendida a outras regiões atingidas pela fumaça.

A estratégia ainda precisa comprovar eficácia: elevar a fumaça não significa remover os poluentes, que podem permanecer suspensos em outras camadas da atmosfera ou retornar à superfície, nem elimina as fontes de emissão, já que os incêndios continuam ativos em florestas, plantações e turfeiras. A Indonésia também já utiliza, separadamente, a semeadura de nuvens com iodeto de prata para estimular chuva e ajudar no combate ao fogo, com novas operações previstas para Kalimantan Central.

Seca recorde e ação humana impulsionam as queimadas

Segundo a NASA, cerca de 90% do território indonésio recebeu pouca ou nenhuma chuva no início de agosto. Em condições normais, a umidade impede que o fogo avance profundamente pelas turfeiras de Kalimantan, Sumatra e Papua; com a seca, o solo perde água e os depósitos de matéria orgânica ficam muito mais suscetíveis à combustão, com chamas que podem avançar abaixo da superfície e dificultar a extinção.

O El Niño não provoca diretamente os incêndios, mas altera os padrões de chuva e favorece períodos mais secos. Desmatamento, degradação de turfeiras e uso do fogo para limpar terrenos agrícolas também contribuem para o problema. Monitoramentos ambientais apontam mais de 1 milhão de focos de incêndio catalogados na Indonésia neste ano, com cerca de 900 mil hectares atingidos. Dezenas de milhares de bombeiros e helicópteros foram mobilizados, ainda que a própria fumaça dificulte as operações aéreas, e a polícia indonésia identificou mais de 200 pessoas e nove empresas como suspeitas de envolvimento nas queimadas.

O teste com gelo seco é tratado pelas autoridades indonésias como medida emergencial, não como solução definitiva: conter os incêndios, recuperar áreas degradadas e impedir novas queimadas continuam sendo os fatores decisivos para o fim da crise. O episódio reforça, ainda, a dimensão do El Niño em curso — o mesmo fenômeno que tem influenciado o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta, incluindo mudanças no padrão climático observadas também no Rio Grande do Sul nesta temporada.

Tags:clima

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