Deriva de herbicida já reduziu 40% dos vinhedos no RS
Produtores criaram aliança e levaram o tema à Assembleia Legislativa, enquanto a Emater já capacitou mais de 24 mil agricultores para reduzir o problema.

Produtores de frutas do Rio Grande do Sul relataram perdas de até 50% na produtividade de vinhedos causadas pela deriva de herbicidas hormonais, fenômeno em que o produto se desloca pelo ar e atinge lavouras distantes do local onde foi aplicado. O problema foi tema de um seminário promovido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) na última quinta-feira (1º), reunindo produtores, técnicos e pesquisadores no Colégio Politécnico da instituição. Na região de Jaguari, cerca de 40% da área de vinhedos ligada à Cooperativa Agrária São José, fundada em 1932, já foi erradicada desde que os primeiros sintomas de dano apareceram, em 2011.
Dano identificado há mais de dez anos
Em 2011, o técnico agrícola Alexandre Maia percebeu folhas retorcidas e crescimento anormal nas videiras da cooperativa de Jaguari. O mesmo padrão foi registrado em mais de 50 vinhedos da região, incluindo propriedades sem lavouras de grãos nas proximidades, o que levantou a suspeita de que o herbicida 2,4-D estivesse sendo transportado pelo vento a longas distâncias.
A área de vinhedos vinculada à cooperativa, que chegou a somar mais de 120 hectares, caiu para cerca de 70 hectares, segundo Maia. A queda de 50% na produtividade fez a indústria operar abaixo da capacidade, elevando os custos de produção e pressionando a renda das famílias que dependem da uva na região.
Produtores criam aliança e levam o tema à Assembleia
Na Vinícola Velho Amâncio, em Itaara, os primeiros danos apareceram em 2015 e se agravaram nos últimos anos. "A partir de 2023 e 2024, chegamos a um nível de dano com o qual simplesmente não é mais possível conviver", relatou a engenheira agrônoma Aline Fogaça, uma das palestrantes do seminário. Segundo ela, os herbicidas hormonais afetam o crescimento das plantas e podem causar danos às frutíferas mesmo em pequenas quantidades transportadas pelo ar.
A discussão ganhou força a partir da Subcomissão dos Herbicidas Hormonais, instalada em abril de 2025 na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. A partir dela, produtores organizaram a Aliança pela Fruticultura, entidade que busca ampliar o debate e aproximar universidades, órgãos públicos e produtores. Para o professor Gustavo Pinto da Silva, do Colégio Politécnico da UFSM, o tema ainda é pouco discutido: "É difícil pautar essa questão", afirmou durante o evento.
Emater já capacitou mais de 24 mil agricultores
Segundo o engenheiro agrônomo Luiz Fernando Oliveira, assistente técnico regional da Emater/RS, a expansão das lavouras de grãos no estado ampliou os casos de deriva. Desde 2019, uma instrução normativa estadual exige capacitação para quem compra e aplica herbicidas hormonais — regra que começou valendo para 21 municípios gaúchos, seis deles na região de Santa Maria.
Para atender à exigência, a Emater criou um curso de 16 horas em parceria com a UFSM e outras instituições. Desde então, já foram realizadas 1.031 capacitações, que qualificaram 24.330 pessoas para o uso correto dos produtos, além de ajudar agricultores a cadastrar áreas sensíveis e de inspecionar 3.500 equipamentos de pulverização.
O debate sobre a deriva de herbicidas hormonais deve continuar nos próximos meses, com a Aliança pela Fruticultura pressionando por mais pesquisa e políticas públicas voltadas à convivência entre lavouras de grãos e pomares. Na UERGS e na UFSM, pesquisadores também avaliam alternativas ao uso desses produtos, com o objetivo de reduzir o impacto sobre a fruticultura gaúcha sem prejudicar a produção de grãos do estado.
Com informações de ufsm.br
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