Abelhas nativas elevam produção de arroz em até 26%, diz Embrapa
Peso dos grãos cheios sobe 41% e resultados embasam pedido de Indicação Geográfica protocolado em agosto no INPI.

Um estudo da Embrapa Agrobiologia mostrou que a polinização feita por abelhas nativas aumenta em até 26% a produção de grãos do Arroz Anã de Porto Marinho, variedade crioula cultivada no distrito rural de Cantagalo, no noroeste do Rio de Janeiro. A pesquisa, conduzida ao longo dos ciclos produtivos de 2024 e 2025 em 15 propriedades da região, também registrou ganho de 41% no peso dos grãos cheios quando comparados à polinização feita apenas pelo vento. Os resultados embasam o pedido de Indicação Geográfica por Denominação de Origem protocolado em agosto deste ano no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Como o experimento comprovou o papel das abelhas
Para medir o efeito real dos polinizadores, os pesquisadores aplicaram um experimento de exclusão em 15 propriedades produtoras do Arroz Anã, sendo cinco avaliadas em 2024 e dez em 2025. Em cada ponto, cinco panículas foram isoladas com saco de organza — que bloqueava tanto as abelhas quanto o vento, deixando a planta sujeita só à autopolinização — e outras cinco com saco de tule, que impedia apenas a entrada das abelhas, mas permitia a ação do vento. Um terceiro grupo de panículas ficou totalmente exposto aos insetos, servindo de referência para o comparativo final.
A comparação entre os três grupos permitiu calcular o que os pesquisadores chamam de serviço ecossistêmico prestado pelas abelhas. 'Concluímos que, em se tratando de variedade crioula, sob manejo agroecológico, isento de agrotóxicos, e em condições de baixa velocidade do vento durante o florescimento, as abelhas nativas desempenham um papel determinante na produção do Arroz Anã, desafiando o paradigma da polinização exclusivamente abiótica', afirma a pesquisadora da Embrapa Mariella Uzêda.
Cinco espécies e resistência ao calor extremo
O monitoramento das abelhas foi feito com aspirador entomológico em cinco propriedades, entre 8h e 11h, horário de maior atividade das flores do arroz. A equipe identificou cinco espécies: as nativas Exomalopsis sp., Trigona spinipes, Augochlorella sp. e Augochloropsis sp., além da exótica Apis mellifera. A abelha europeia esteve presente em 100% das áreas monitoradas, a nativa Trigona spinipes em 80% e a Exomalopsis sp. em 40%, formando uma comunidade diversa de grandes generalistas e pequenas abelhas solitárias.
A diversidade de polinizadores se mostrou decisiva em 2025, quando uma temporada de seca severa e calor extremo durante a floração ameaçou a formação dos grãos. Segundo a pesquisa, o limite crítico de temperatura para a fertilidade do pólen fica em torno de 37,2°C — acima disso, o estresse térmico compromete a formação do grão. A velocidade com que as abelhas alcançam os óvulos das flores, antes que o calor os prejudique, tornou a ação delas ainda mais relevante para sustentar a produção naquele ciclo.
Indicação Geográfica em análise no INPI
Os dados de campo integram o conjunto de evidências científicas que sustentam o pedido de Indicação Geográfica por Denominação de Origem do Arroz Anã de Porto Marinho, protocolado em 8 de agosto deste ano no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. O requerimento foi apresentado pela Associação de Produtores Rurais, Pescadores, Artesãos, Moradores e Amigos de Porto Marinho e Entorno (Apomar), que reúne os produtores da variedade crioula cultivada sem agrotóxicos nem fertilizantes químicos na região.
De acordo com a pesquisadora, embora o estudo não tenha comparado diretamente sistemas agroecológicos e convencionais, é sabido que o uso de agrotóxicos reduz a abundância e a diversidade das abelhas nativas, o que compromete o papel da polinização biótica em lavouras convencionais de arroz.
O reconhecimento da Indicação Geográfica ainda depende de análise do INPI, mas o conjunto de dados reunido pela Embrapa já reforça o valor ambiental e produtivo do manejo agroecológico ligado à variedade. Casos como o do Arroz Anã de Porto Marinho reacendem a discussão sobre a importância de preservar populações de abelhas nativas para a segurança alimentar, tema que também interessa a regiões orizícolas como o Rio Grande do Sul, onde a preservação de polinizadores segue como campo de estudo em expansão.
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